quarta-feira, 31 de maio de 2017

Sra. M.

A situação caótica e esquizofrênica que vivemos nos aprisiona cada vez mais. Precisamos nos reinventar e nos recriar para que nossas funções e nossa forma de viver não seja responsável por nos amarrar em uma sociedade e em uma política cobra-coral. Cabe a nós, artistas, nos desvencilhar dessas amarras impostas e nos retirarmos dessa teia amoral que estão tentando nos jogar. Somos a armada revolucionária que explode com pensamentos. Se somos contrários a vigência condicional estabelecida precisamos nos ligar com força, eletricidade, interruptores e colorirmos essas vistas cegas acinzentadas de ódio e banhadas em lágrimas de uma mulher chamada mídia. Ela nos conta coisas que não são verdadeiras. Ela nos faz amar pessoas que nem conhecemos. Ela nos faz gastar sem ter. Querer sem querer. Ela é uma serpente que nos hipnotiza e dá o bote exatamente no aurículo esquerdo injetando sua peçonha bem pertinho da aorta. Um segundo depois nossos corpos e mentes estão tomados por esse elixir contrário que corre por dentro de nossas veias. Três segundos depois exala por nossos poros. O aroma não é humano. É aroma humano fétido putrefato. Bons eram os tempos que ao olharmos virávamos pedra. Éramos um agregado sólido que se constituía naturalmente, minerais ou mineraloides, não importava, éramos um. Agora os entendidos se denominam petrologistas e insistem em nos encaixotar, classe a classe, montadas pelo cheiro que exalamos, mas nossos cheiros já não importam mais, eles nos contam nada, somos apenas fragmentos soltos solitários de sal. Doces eram nossos sonhos que se esvaziaram como bexigas sem nó que urram tristes espiralando cheias de desespero quando lembram de tudo que possuíam esvair. Caímos. Murchos. Mortos.  

terça-feira, 25 de abril de 2017

Pintos, pintassilgos e pintarroxos

Ah amor passarinho... Doente de mentira você partiu. Mais uma vez. Mal sabes tu que bula medicamentosa não é poesia. Sempre cantei que iria te fazer feliz, te cuidar e te fazer bem. Ah eu cantei... Minha moradia, simples é verdade, como a do joão-de-barro, era só mais um oportunismo para que não voasse sozinho. Minha moradia, agora entendo, era só um descanso para suas asas perdidas que te levam para um caminho menino. Cantei que minha casa foi sua moradia quando precisou, nunca sua gaiola. Ah amor passarinho... As portas sempre ficaram e continuarão abertas, não se esqueça disso, aqui as portas são sentimentos-verdade. Tudo que fiz foi te fazer bem para você ficar. E você ficou até se prender e perder nessa grande rede que foi seu alçapão. Saiba que nem tudo que voa é passarinho. Nesses dias de tecnologia nada se apaga e informação é bumerangue que sabe voar e voltar tal qual as borboletas que sempre voltam, mesmo que existam pedras no caminho, ah amor passarinho... Cuidado com seu velho-novo caminho, mesmo que você não veja as pedras estão lá, invisíveis como a sensibilidade que me conta tudo. Tudo é revelado, passe mais ou menos tempo, o bailado termina, a arte é só a vida e as máscaras quando usadas por debaixo do rosto logo trincam, pois são feitas de barro, e pelas frestas invade a luz com toda veracidade e sinceridade, ah amor passarinho... Era só isso que eu queria. Aqui os dias se transformam em noite e a noite todo predador de passarinho tem bigode grande e é falso pardo. Você já se feriu com isso. Atente-se! Dançar pode ser perigoso, principalmente se acompanhar ratos e morcegos que te guiarão com cabrestos, como já te guiaram no passado, e você dará com a cabeça na parede e quebrará seu bico no final. Te peço para que jamais, em hipótese alguma, coma pedra. Plantei em ti muita coisa boa e só colhi o que pedi para não me oferecer: mentiras e falsidades. Ah amor passarinho... ainda bem que sei voar. E assim alço voo com minha consciência limpa, leve e sincera como sempre fui, como sempre serei.   

sexta-feira, 31 de março de 2017

Quando existiam as cartas

Eu sei que ainda não tivemos a oportunidade de nos conhecer e já temos uma relação tão próxima que sou capaz de sentir seu cheiro e me colocar dentro do seu abraço. Nossas confidencias são tão reais que consigo ouvir sua voz me contando o que estou lendo. Eu sei até o momento que você faz as pausas e fica pensando... (como está agora, agora você está sorrindo). Tenho tanto para te contar que com palavras não sei dizer, sim! Estou parafraseando Roberto, que você tanto gosta. Agora falando sério, eu tenho algo muito importante para contar. Eu decidi ser mãe. Estou com muito medo dos desdobramentos dessa decisão. Eu acredito que já tenho idade suficiente mas fico assustada quando leio coisas sobre “o aprender ser mãe” apenas depois de ser mãe. Talvez seja algo muito particular, uma incerteza que logo passa, mas eu tenho medo da sociedade que vivemos, das intolerâncias, da violência que a criança pode sofrer por conta do que eu sou. Não tenho receio algum do apoio da minha família, sempre estiverem do meu lado, e continuarão. Mas e os outros? Eu gostaria de entender tudo isso que borbulha em mim. Eu queria acordar e ver aquela coisa fofa dormindo no berço e durante a noite chorar para que eu logo dê de comer. E se eu não der de comer? E se eu me cansar da criança? Será que posso devolver? Gostaria de vê-la crescendo, e nessa fase me reconhecer nela. Ver o meu nariz, meu cabelo, meus trejeitos, e até minha personalidade. E se eu não me reconhecer nela? Biologicamente é impossível apenas uma pessoa gerar uma criança, mas o futuro está logo ali, não é? Eu não vou esperar o futuro. Eu já decidi que serei mãe. Eu já decidi até o nome. Vai ser um nome indígena e vou contar em primeira mão para você. Então se prepare! O nome será Aruã. Isso mesmo, Aruã. Um nome que serve para meninos e meninas e significa sentinela. Essa criança será o/a sentinela do futuro, um futuro que ela viverá, eu não. Ele ou ela será o início do tempo feliz. Do novo. Eu até comecei a costurar um boneco para Aruã. Esse boneco será o seu eterno patuá. Sua proteção. Eu acho aquela coisa de fazer sapatinho de crochê muito ultrapassado, por isso estou tecendo esse boneco que será muito significativo. Ele terá vários defeitos, pois estou costurando pela primeira vez. Estou usando um arco íris de cores de linhas, pois acredito na pluralidade das coisas. Ele terá um olho azul e outro rosa, para enxergar todas as possibilidades e no lugar do coração uma pena indígena que representa proteção e sabedoria. Essa pena eu ganhei dos meus pais antes de partirem para seu último trabalho. Depois disso nunca mais os vi, apenas senti. Decidi então dar como primeiro presente para meu filho um boneco que faz parte das últimas lembranças que tenho dos meus pais. De alguma forma é maneira que encontrei para a continuidade da nossa linhagem. Ah, já ia esquecendo, Aruã será seu afilhado/a. Um grande beijo meu e um até logo de Aruã que chegará em 7 meses.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Talvez uma poética realidade, talvez

Mais uma vez naquele lugar. Um lugar que se não fosse tão meu, tão particular, não seria possível sequer imaginá-lo. Desde criança meu porto seguro. Não a toa estava eu ali, no píer, que agora tem algumas madeiras atravessadas mal encaradas e infelizes que denotam a idade e a exposição persistente ao relento. Mas era uma vez diferente de todas as outras. Chovia. E isso não quer dizer que nunca estive antes, ali, vivendo essa intempérie. Era um momento diferente. Definitivamente eu estava encharcado. Cada gota da constante chuva me fazia pensar, me fazia pesar. Talvez um sinal que o tempo/espaço naquele encontro estivesse dilatado. Cabelos, rosto, pescoço que servia de duto para levar água até meu peito, abdômen, pernas e pés. Era um total desconforto sendo abastecido por cada pingo d´água. Contudo o que mais incomodava eram os pés molhados. Ainda assim eu persistia ali, tal como uma palmeira imperial enraizada naquela margem que parecia um traço fino de nanquim cuidadosamente concebido por algum artista em seu caderno de rabiscos. A margem também continha algumas plantas delicadas que estavam envergadas pela insistência da chuva torrencial, já outras, sequer abalavam-se e permaneciam plenas e destacadas com suas cores neon. Ao centro a grande quantidade de água parada, que de cima parceria uma grande poça d´água, recém-inaugurada, como há cinquenta anos, era um convite ao silêncio não fosse a sonata dos pingos de chuva que feito kamikazes se atiravam da imensidão do céu. A cada impacto eles rascunhavam a formação de uma correnteza que preguiçosa se desfazia três segundos depois como se pegasse no sono ao ouvir toda a musicalidade do momento. Ainda assim eu consegui submergir o pensamento naquelas águas que serviam para mim, de alguma forma, como alimento, como elixir. Bebi. Tomei como fazemos com caldos quentes em dias frios. Sentia o cheiro de tudo aquilo em mim. Era uma espécie de salto quântico em que podia viver o passado, o presente e o futuro no mesmo instante da minha vida. Depois aconteceu um maremoto de sensações. Já não sabia ao certo o que sentia, o que pensava, onde eu estava ou quanto tempo passou. Fato é que já não importava mais. Eu só queria estar. E assim estive por mais alguns instantes até que a última gota aconteceu. Ela não se atirou do céu como as demais produzindo música, ela apenas rolou e vazou como maré dos meus olhos, molhando assim a última parte que faltava.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A era do não

Realmente, estamos vivendo uma era inglória. Uma era confusa, uma era que não podemos chamar por um herói, pois não o temos. Precisamos ser nossos próprios heróis. É importante que se diga antes de tudo, que por definição, herói é uma pessoa de grande coragem ou autora de grandes feitos, ou ainda, personagem nascida de um ser divino, contudo, de seres divinos estamos definitivamente distanciados. Somos mais humanos que nunca. Somos mais incertezas que nunca. Somos mais desumanos que sempre. Notamos que o não prevalece entre nós. Sim, a certeza do não. E assim temos certeza de não possuir certeza alguma. Tudo tem sido mais difícil, até mesmo as pequenas coisas. Viver tem se tornado um ato heroico, principalmente nas cidades. Principalmente nas grandes cidades. Certa vez li de um psiquiatra francês: “... cidades com quatrocentas a quinhentas mil pessoas são desvios da natureza.” Logo nós, frágeis humanos que estamos inseridos nessa grande bolha urbana transviada não passamos de seres errantes desviados de nossa singela condição. Não vejo mais um olhar em minha direção. Não mais converso olhando em olhos. Tudo é apenas um momento que já passou. Será que nós estamos apenas passando? Eu tenho vontade de parar. A era do não diz apenas “não!”. Sigo. Sigo tentando me metamorfosear em meu próprio herói com a esperança ele não acabe com heroína. 

sábado, 31 de dezembro de 2016

A volta

Eu voltei. Depois de algum tempo onde muita coisa aconteceu, eu voltei. Quando você entende que algumas coisas coisas na vida não mudam, quando você entende que algumas coisas na vida mudam o tempo, coisas precisam ser modificadas. Eu sou sempre uma mudança, não no sentido exterior, sim no sentido interior, bem aqui dentro de mim, eu sei que nem depois de uma vida eu deixarei de mudar. A maior mudança aconteceu por uma demanda minha, mais um algo bem interno em mim, um algo tão meu, tão aqui dentro que talvez atinja, inclusive, outros lugares que não cabem nesse mundo, nessa nossa camada. A vontade de escrever sempre existiu, nunca deixou de pulsar, e quando comei a ouvir, quando comecei a buscar, quando comecei a aprender eu decidi voltar. Visitei novamente escritos que aqui estão e me vi registrado em cada palavra, em cada texto, em cada metáfora. Eu me reconhecia como se fossem eu-textos, como se aquele trabalho me revelasse, me relembrasse, me ressuscitasse, me redirecionasse para épocas, períodos e momentos que vivi. Eu me recordei de cada um. Eu sabia exatamente quem, quando, onde e porquê eu estava ali, em palavras e alma. Por fim eu me emocionei. E decidido voltei. Tenho certeza que não escrevo para ninguém, pois sou apenas uma ferramenta para tradução do que sinto. Tenho certeza que dessa forma eu escrevo para todo mundo. Eu escrevo para alguém especial, ou um momento meu, ou uma sensação minha. Eu escrevo para me revelar. Mudei algumas coisinhas e cores no blog, acrescentei uma foto bonita e talvez ainda mude mais, pois como disse, eu sou passageiro. Assim termino o ano recomeçando. Quero gestar mais eu-textos e todo mês dar vida a um deles, quero me reconhecer, no futuro, em cada um. E assim será.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Ode

Hoje eu acordei com uma vontade danada de não ter vontade nenhuma. Apenas estar. Nada mais que isso. Pegar tudo que eu tenho e despachar em uma trouxa de chita para um lugar bem longe. Não ter mais nada, não ser mais nada, não conviver com mais ninguém! Tal qual um avestruz enfiar minha cabeça na terra e nunca mais sair de lá, e quando sair poder entrar em um mar que seja só meu e saber que depois de mim ninguém mais banhar-se-á nele. Habitar um planeta que seja só meu, que esteja só eu. Ouvir o silêncio. Atingir o estágio pleno de ter um corpo vazio e uma mente limpa. Eu estou cansado do meu cansaço! Eu estou farto de coisa nenhuma, eu tenho rancor das pessoas que se afastaram de mim, das que permanecem e de mim próprio! Eu não tenho mais paciência para minha impaciência! Eu quero que todos os meus desejos, vontades e sonhos rumem para o inferno para servir de combustível para mais uma chama e esta transforme tudo em cinza, pois esse é o melhor destino para tudo isso! Eu quero sentir mais nada por ninguém, eu quero não mais sofrer por alguém, eu quero me desligar de tudo! Quero alimentar os ratos e dar pouso para as pestes! Nem isso eu consigo. Quero vegetar, não quero me alimentar, malditos cloroplastos faltantes. Eu estou frustrado com as minhas frustrações. Eu sei que um dia eu tive sonhos... Eu tive sonhos que foram todos destruídos pela realidade, eu amei quem não me amou, eu lutei por quem não se importou e tentei ser algo para alguns mas apenas obtive êxito em ser nada para todos. As minhas opiniões nunca valeram nada, apesar de certeiras. Se as pessoas me ouvissem tenho certeza que viveríamos em um mundo melhor, mas como não posso mudar as pessoas eu prefiro me abster de qualquer outra tentativa em vão, prefiro me trancar em meu casulo blindado de ohn. E dentro dele onde sou verdadeiramente eu sem nenhuma interferência posso meditar. Meus mantras me cobrem deste inverno rigoroso chamado vida. O dinheiro ajudar a aquecer este clima inóspito mas eu nunca o tive. Rogo auxílio as forças cósmicas sobrenaturais pois elas são muito mais humanas que qualquer ser terreno que eu tente estabelecer qualquer tipo de contato. Peço que me transformem em incenso para quando meu casulo eclodir eu emane minha essência rara e purifique o ambiente onde tanto sofri. Prefiro deixar o melhor de mim...