quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Para uma avenca partindo - Caio Fernando Abreu

Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer... Dessas coisas que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais... Porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme de todas essas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver... Não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando o meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs... Não, não sei por que todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensando nisso, por favor, não me interrompa, esse maldito vício de comprar uma maça toda noite antes de voltar pra casa me incomoda, realmente não sei. Existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor, pensei sim, não, pensar propriamente não, mas eu sabia que havia uma outra coisa atrás e além de nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria. Você lembra uma vez quando disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, de não sentir medo desse mais fundo. Você riu... Porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco. O que quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos conta, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa da garganta que falo, é de uma outra, de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso. Deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeito, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca... Talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente... Você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir! Por favor! Ajuda-me... Senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai ser mais possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras! É o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa. Olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos! Mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor, não é? Eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando numa porção de coisas que queria te dizer depois, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis que precisam ser ditas... Não faça essa cara de espanto, elas são realmente terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, se você teria, não sei, disponibilidade suficiente para ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo! Disponível, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender melhor... Claro que dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é, eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas. O fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente em nada. Mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia desses eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas. Espera um pouco, eu vou te dizer todas essas coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar atenção você não vai conseguir entender nada... Sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo. Sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem. Está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo. Continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, a maçã fica comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai... Sim, sei, eu vou escrever, não, eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, (correndo para abrir a janela) está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as bolsas, fica tranquila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca! Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer... Olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê...

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Baço

Eu e minha constante demanda interna, minha constância questionadora, algo quase inexorável, algo ínfimo, algo tão particular que descrevê-lo torna-se tarefa ingrata, contudo, em meu eu, é como se algo me cutucasse a tentar fazer o mais difícil, a acessar o inacessível, a tanger o intangível e por vezes tentar colorir o que é baço. Minhas incertezas brotam como ervas daninha em terreno fértil, as perguntas surgem como água no alto da cascata, eternas. Eu sei de tão pouco, e o que eu sei é quase nada. Por que tenho essa ânsia de saber sempre e saber mais? Por que? Fato que destes questionamentos encontro algo rico, algo que me engrandece, um algo quase nobre. Outrora tive a oportunidade de ler o seguinte: "O que não pulsa, morre." e disso tenho certeza que não padecerei, sinto que pulso, por momentos em demasia, mas esse pulsar insano me da vontade de mais, de querer mais, de buscar mais... Aí quando volto a si já é tarde. Me joguei. Sem medo. Sem receio. Sem escrúpulos. De braços aberto e de peito limpo. O abismo está logo ali e eu dentro dele, em queda livre, me abstraio de tudo que é humano, de tudo que é terreno, de tudo que é divino. O que busco é algo maior, algo que ainda não tenho, algo que me satisfaça por completo. A busca continua, continuará. Com ela me fortaleço e estremeço, com ela me entristeço, e me alegro, mas sem ela não vejo mais sentido, os buracos que continuam sem explicação me causam furor, sentimentos confusos pulsam dentro desses espaços mas é como se precisasse deles para deles tirar a ânsia de seguir... sigo. E espero um dia poder sorrir, um dia ser esse sorriso que busco o resultado destes sacrifícios todos, seja como um grão de areia perdido no espaço, seja como uma gota de mar em meio a um oceano.

domingo, 4 de agosto de 2013

Jurisprudência

Eu seguia pelo meu caminho. Combalido. Não estava bem e meu pensamento insistia em tentar encontrar uma explicação, quem sabe uma resposta para meu alento, algo que justificasse de forma concisa o que havia passado, e mais importante, o porquê ainda sentia. O caminho era cotidiano, abaixo de meus pés os cascalhos do caminho produziam um cascalhar melodioso, se não irônico, da minha fisionomia flagelada pelas interrogações que sentia. Seguia. Era preciso. Agora que não tinham mais ninguém, era apenas eu por eu mesmo. Passos após passos. Algo diferente. Anormal. Estava logo a frente. Era como se fosse um livro, confesso que bastante surrado, talvez nem só pelo tempo mas também pelo excesso de leitura, pelas muitas mãos que por ali passaram. Misericordioso o recolhi do chão e piedoso tirei o tanto de terra que estava sobre sua capa. Foi com um assopro que o pó alçou vôo e o título escrito em letras clássicas se revelou: Jurisprudência do amor. As primeiras linhas explicavam do que se tratava. Não dizia quem havia escrito. Deixava claro que era uma espécie de remédio oferecido aos doentes, nem todos poderiam ler, poucos teriam a capacidade de compreender, contudo era obrigação de quem o tivesse em mãos desfazer-se dele, de forma a seguir os instintos recebidos pelo coração, e o mais importante, dividir de alguma forma o que aprendeu. E assim tenho feito, em forma de textos, apesar de muitos pensarem tratar-se de algo fictício, algo romântico ou até louco. Que seja o que pensarem, entendo perfeitamente a situação de cada um desses achismos, pois hoje eu conheço as leis do amor, e não tenho medo de assumir que fiz tudo errado, que sofri e é como recompensa por esse sofrimento que me encontro aqui para dividir como fui incumbido e passar adiante o que de mais importante as leis dizem: "1 - Não ame só. Amar só é como tentar segurar a pouca água de um copo nas mãos. Amar é uma troca, e se você não sente essa troca você não tem um amor. 2 - Não gaste amor em vão. O melhor investimento em amor é aplicar em algo que você receba amor como dividendos. Se você gastar sem receber, vai ficar sem, e sem você não o terá novamente. 3 - O amor deve ser sentido no tempo certo. Tal como uma planta, você cuida, rega, poda e no momento certo colhe os frutos assim é o amor, se você não plantá-lo, cuidá-lo, e no momento exato colher os frutos, ele apodrecerá no pé. 4 - O amor é como um cavalo selado, passa apenas uma vez na sua frente, aproveite a oportunidade, não fuja, não tenha medo. São raros os cavalos que retornam, e se ele voltar considere-se abençoado. 5 - Não vire as costas para o amor. Sentimento rancoroso quando negado te marca, não volta, foge de você. Não negue estadia ao amor." São basicamente esses os pontos mais importantes na lei do amor e todos deveriam pensar, fazer e sentir, pois, o amor é sublime.

domingo, 28 de julho de 2013

Obnubilações

Sinto meu corpo clamar contudo não consigo entender. É como se eu soubesse o português e ele insistisse em falar armênio. A linguagem dos gestos não funciona, talvez o que seja mais próximo da compreensão sejam as sensações. Elas sempre chegam. E elas sempre me confundem. Como entender sinais? Como decifrar sensações? Como imaginar como será se não sei como é? Fato concreto é que os membros estão se manifestando, cada vez mais, cada vez com mais intensidade. Precisam me comunicar algo que dentro de minha incapacidade humana não consigo entender para tentar sanar. Fico perdido dentro desta bolha chamada culpa. É tudo tão confuso que me sinto inerte dentro dos meus movimentos constantes. Mas as sensações não param. Eu sinto meus pés gelados, a minha ação paliativa e natural é tentar aquecê-los. Não consigo. É como se eles desejassem permanecer assim. Meus joelhos fraquejam. Estalam com a constância dos minutos de um relógio preciso. Não falha. Parecem não fazer questão de me sustentar. Minhas mãos não passam de extremidades, na atual conjuntura desnecessárias, pois apenas servem de suporte para dedos carcomidos que não me ajudam. Os cotovelos são tão flexíveis quanto remos de um velho barco. E aí chegamos ao centro de controle de todo o sistema, a cabeça. Sustentado por um pescoço reumático, as dores são constantes. Minha boca ainda serve de entrada para alguns tipos de alimentos, outros preferem ser jogados para dentro de maneira intravenosa. Dela gostaria que pudessem sair palavras, até poderia sonhar com uma música, mas nada além de urros brotam. Meu nariz não sente mais nenhum aroma, apenas por vezes tenho a impressão do cheiro do álcool. Os olhos, talvez o que ainda me resta em pleno funcionamento, de fato eles são as janelas da alma, e apesar de não ter o mesmo brilho que emanavam, ainda vejo cada cor, ainda consigo decifrar cada forma, vejo aquelas pessoas de branco indo e vindo, e por vezes a falta de cor me incomoda, é tudo tão sério. A imagem que mais me recorre é a do arco íris, no céu, depois da chuva, a paz, o canto dos pássaros, o cheiro de terra, sinto até a brisa em meu rosto. É tudo tão estranho pois consigo sentir isso tudo por meio de olhos que porcamente enxergam algo. Já o cérebro continua a ser o senhor dos poderes, o mais sério. Eu gostaria que existisse em algum lugar deste combalido resto mim um botão que pudesse apertar para que minha alma fosse ejetada e liberta desta tortura que me aprisiona. Eu desejo todo dia desligar. E só consigo reiniciar. Durmo. E amanha sei que vou acordar igual...