domingo, 28 de julho de 2013

Obnubilações

Sinto meu corpo clamar contudo não consigo entender. É como se eu soubesse o português e ele insistisse em falar armênio. A linguagem dos gestos não funciona, talvez o que seja mais próximo da compreensão sejam as sensações. Elas sempre chegam. E elas sempre me confundem. Como entender sinais? Como decifrar sensações? Como imaginar como será se não sei como é? Fato concreto é que os membros estão se manifestando, cada vez mais, cada vez com mais intensidade. Precisam me comunicar algo que dentro de minha incapacidade humana não consigo entender para tentar sanar. Fico perdido dentro desta bolha chamada culpa. É tudo tão confuso que me sinto inerte dentro dos meus movimentos constantes. Mas as sensações não param. Eu sinto meus pés gelados, a minha ação paliativa e natural é tentar aquecê-los. Não consigo. É como se eles desejassem permanecer assim. Meus joelhos fraquejam. Estalam com a constância dos minutos de um relógio preciso. Não falha. Parecem não fazer questão de me sustentar. Minhas mãos não passam de extremidades, na atual conjuntura desnecessárias, pois apenas servem de suporte para dedos carcomidos que não me ajudam. Os cotovelos são tão flexíveis quanto remos de um velho barco. E aí chegamos ao centro de controle de todo o sistema, a cabeça. Sustentado por um pescoço reumático, as dores são constantes. Minha boca ainda serve de entrada para alguns tipos de alimentos, outros preferem ser jogados para dentro de maneira intravenosa. Dela gostaria que pudessem sair palavras, até poderia sonhar com uma música, mas nada além de urros brotam. Meu nariz não sente mais nenhum aroma, apenas por vezes tenho a impressão do cheiro do álcool. Os olhos, talvez o que ainda me resta em pleno funcionamento, de fato eles são as janelas da alma, e apesar de não ter o mesmo brilho que emanavam, ainda vejo cada cor, ainda consigo decifrar cada forma, vejo aquelas pessoas de branco indo e vindo, e por vezes a falta de cor me incomoda, é tudo tão sério. A imagem que mais me recorre é a do arco íris, no céu, depois da chuva, a paz, o canto dos pássaros, o cheiro de terra, sinto até a brisa em meu rosto. É tudo tão estranho pois consigo sentir isso tudo por meio de olhos que porcamente enxergam algo. Já o cérebro continua a ser o senhor dos poderes, o mais sério. Eu gostaria que existisse em algum lugar deste combalido resto mim um botão que pudesse apertar para que minha alma fosse ejetada e liberta desta tortura que me aprisiona. Eu desejo todo dia desligar. E só consigo reiniciar. Durmo. E amanha sei que vou acordar igual...

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