sexta-feira, 13 de junho de 2014

Flor

Era cotidiano. Uma chata rotina que dia após dia se repetia, se renovava tal qual uma flor das onze que se abre na esperança de neste novo dia que raia permanecer esplendorosa como a mais exótica orquídea que anseia o despertar. Era apenas desejo. A flor das onze, pequena e insignificante, nunca será uma orquídea, nunca será esperada e admirada pois, pequena e sem beleza apenas suporta o peso de um dia. Assim eram meus dias, um peso. Um desejo desumano de algo diferente, de conseguir brotar uma pétala que seja digna de algum olhar admirado, deixar de ser apenas aquela relva rala que se alastra pelo chão, sem importância, sem trato. Tudo era sempre igual. A vontade, o começo do dia, o passar do dia, a tarde, a noite, a vontade, o dia... Sempre nesta ordem. Foi quando em um certo amanhecer notei algo novo naquele ambiente, o jardineiro, que instantaneamente passei a chamar de meu. Depois disso meus dias mudaram. Esperanças brotaram em mim, invisíveis aos demais, mas em mim era a diferença que eu precisava. Neste período nunca me esforcei tanto para crescer, para absorver todos os nutrientes que a terra me fornecia e de forma quase bandida roubar um pouco dos fertilizantes que eram jogados as plantas mais elitizadas, queria crescer, quase desesperadamente fazer minhas folhas, por mais pequenas que fossem dobrarem seu tamanho, tornarem-se visíveis, ter importância e mais do que tudo, ser notada por ele. Era uma força que causava dor, sobretudo pela minha irrelevância que era cada vez mais incomoda. Toda essa força de vontade era por ele, era um desejo diferente, não pensava mais em mim, toda minha forma era trabalhada para que ele me percebesse. Eu não desistia. Observava-o todo o dia, toda sua rotina de trabalho, e depois de algum tempo eu me sentia já crescida, apesar de ser inverno e uma época não propícia ao desenvolvimento vegetal foi o período da minha vida que mais cresci. Confesso que sentia inveja das rosas, dos jasmins, das hortênsias e de outras plantas com patamares mais elevados pois diariamente ele as tocava, aquelas mãos eram mágicas, imaginava o dia que elas me tocariam, tal como fazia com as rosas, quase uma coreografia de trato, era carinho. Eu nunca senti isso. O que mais próximo a isso sentia era quando ele passava por mim e a corrente de ar que ele criava tocava em mim... Indescritível. Continuava crescendo e o inverno intensificando. Algumas vezes cheguei a pensar que não resistiria pois quanto mais rigoroso o clima ficava eu gastava mais energia para sustentar a vida nas minhas folhas que agora estavam com um tamanho que nunca antes havia conseguido. Resisti. O inverno chegaria ao fim. E quando a primavera chegasse seria o meu momento, seria quando ele me notaria e me tocaria como em meus sonhos, e pela primeira vez na vida meus desejos seriam fatos. O prazo estava findando e estava ansiosa para a época das flores e do meu sonho realizar-se. Contudo percebia que algo estava diferente, imaginava que seria o clima mudando ou quem sabe meu tamanho tão grande. Não via o meu jardineiro a tempos. Mas apesar dele nunca ter me olhado eu confiava nele, esperaria por ele. E ele voltou. Mais lindo que antes, seu sorriso emanava notas musicais que eram acompanhadas pelo piar dos pássaros que voltavam. Aquele dia foi tão lindo, observei-o durante horas até o entardecer, quando a noite caiu eu também cai no sono e não percebi quando ele foi embora. No outro dia acordei com alguns barulhos estranhos. Era mais cedo que o habitual, meu tamanho demandava mais horas de sono para acumular mais energia para conseguir sustentar meu tamanho. Ao despertar vi meu jardineiro vestindo algo diferente, era como um cavaleiro medieval, todo coberto dos pés a cabeça e na mão tal como uma espada de fina lâmina, ele empunhava uma enxada cunhada com finos ferros e aço. Fiquei assustada com sua brutal força. Ele fincava sua lâmina no solo e tirava punhados de terra, nessa terra toda relva era aniquilada, o solo estava sendo preparado para o novo plantio, para as novas plantas e a boa saúde das que já estavam plantadas. Foi aí que percebi que não era uma flor, era apenas uma erva daninha e ele não me notava pois as plantas eram seu trabalho, eu apenas estava esperando minha hora, minha morte. Tudo que fiz, toda luta para me tornar uma flor melhor foi minha sentença, meu epitáfio. Só me tornei algo que trará mais trabalho a ele e com o fim do inverno com o desenvolvimento das flores e a chegada da primavera eu preciso ser exterminada. Eu inocentemente criei expectativas falsas de me tornar uma flor e por ele ser cuidada, fui tola, apenas desenvolvi sentimento por alguém que jamais me cuidará, me apaixonei por meu carrasco, eu amei meu algoz. Ele se aproxima a cada vez mais de mim, vejo todo o trabalho de arrancar as pragas que o solo sustenta e eu era uma dessas, a poucos centímetros de mim imaginei quando tive aquele sonho de algum dia ser tocado por ele, como as jasmins eram, e antes que pudesse pensar qualquer outra coisa fui surrada pela enxada. Ele era tão rápido, ele era tão preciso que não sofri, quando me dei conta já estava dividida em duas, sentia ele cavoucar as minhas mais profundas raízes, talvez todo meu projeto de crescer e me tornar uma bela flor tenha trazido alguma dificuldade para ele me exterminar, talvez por isso também ele tenha perdido mais tempo comigo e permanecido mais tempo ao meu lado. E ele venceu. Agora estou destroçada jogada ao solo secando como uma digna erva que atrasa o cultivo. Mas eu estou feliz. Pois como em meus sonhos ele me tocou, ainda agonizava enquanto ele destruía minhas raízes e folhas e como por piedade do acaso uma parte de mim caiu sobre seus pés, e ele, como um lorde abaixou-se e com aquelas mãos mágicas pegou aquele pedaço de mim e carinhosamente me colocou no chão. E assim os meu sonho foi realizado. Senti seu toque. Mesmo que agora esteja secando, estou feliz. Morro como uma praga mas sinto que sou um pouco mais rosa que muitas daquelas que lá permanecem...

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