segunda-feira, 5 de maio de 2014

Nada

Solidão é nada. É um buraco latente crescente descontrolado bem no meio do peito. É ter a sensação de queda livre eterna. É estar despedaçado e ainda assim ter de resistir, ter de fica em pé, impassível, imperturbável. Uma sensação tão sua quanto o ar que você respira e é este o combustível para que cada vez mais as pessoas não te notem. Silêncio. Ele te perturba. Sono. Insônia. Você acorda. Você acredita sempre ao acordar que aquele olhar que cruzará o seu enquanto andar sem ser notado pela calçada em meio a multidão será o seu antígeno capaz de livrar-te de todo esse ranço, todo esse peso quase cármico que te aflige. Você acreditava. Agora você não crê em mais nada. Os dias são longos e as noites ainda mais longas. O telefone não toca, cartas não chegam e nem as orações que outrora emanavam até você cessaram. Nem mesmo sua própria companhia está ao seu lado. Sua identidade partiu. Seus sonhos provavelmente estejam perdidos em algum lugar inalcançável no fundo da memória pois você não mais lembra deles, você não tem vontade de procurar por eles. O que resta são alguns livros na estante, eles ainda são um fugaz caminho para um raro momento de distração. Mas eles também te abandonam sempre após o fim. Assim você segue nesse caminho de ausências, de faltas, do esquecimento do seu eu, dos outros... E então você apenas aceita sua posição e entende que solidão é nada.

domingo, 6 de abril de 2014

Eles

Seres super humanos conversam comigo. Não sei se posso de fato chamá-los assim de seres pois seria um pecado qualquer comparação biológica e uma afronta de minha parte, todavia estou aprendendo. São entidades, espíritos, energia, ou qualquer outra coisa que cada um os denomine. O que de fato importa é que estão a me acompanhar. Estão a se comunicar e cada vez com maior freqüência. Começou de forma estranha, de forma confusa. Era como se minha mente falasse por si só, trouxesse informações que não eram minhas. A mentalidade da comunicação era incomoda. Mas era o começo, era necessário e era somente dessa forma que seria possível como de fato está sendo. Acredito que devido a minha limitação, por ora, a comunicação é unilateral, mas tenho absorvido cada detalhe, tenho ouvido os conselhos, dos mais variados aspectos que eles me mostram, como sobre a humanidade, a biologia, a tecnologia, o existencialismo, a espiritualidade tão necessária e o memento que vivemos. Quanto mais sei mais tenho dúvidas e mais quero saber, mas sei que é aos poucos que as coisas funcionam. Tenho tantas incertezas que me fazem pensar, e pensando algumas conclusões simplórias são decretadas. Sendo uma das mais básicas: Eles estão entre nós. Indiscutível. Inquestionável. Eu gostaria de dividir com outros mas são poucos os que conseguem ter a mente limpa para tal. É como se vivêssemos em um aquário imersos em tintas das mais variadas tonalidades, texturas e outras ainda invisíveis. E somente aqueles que ao serem fisgados conseguirem manter o corpo alvo como o mais simples sentimento da pureza terão os conhecimentos. É preciso alcançar a limpeza mental, tal qual uma tela em branco para só assim ser colorida desses novos conhecimentos inebriantes. Contudo ainda somos poucos. Os outros são mais, em números. Todavia a mudança está próxima, a data está chegando. O tempo tem passado e os pontos cada vez mais ligados e interligados de forma tão clara e sutil que poucos percebem. Muitas mudanças ainda estão por vir, muitas coisas ainda serão entendidas e muitos não estarão nesta escala de entendimento, mas deverão entender, será inegociável. Pense nisso. Já somos variados, já estão entre nós. Permita-se evoluir. Olhe ao seu redor, a proximidade é física, o esclarecimento opcional. Atente-se ao que você vê mas não enxerga. Em breve nossa limitada esfera azul será múltipla.

domingo, 30 de março de 2014

Convicção

Agora o que nos une é a distância. Percorremos todo esse caminho em rumos opostos estando um ao lado do outro. Mesmo que pensássemos em algo comum foi a nossa individualidade que nos tornou tão dicotômicos. Enquanto eu vislumbrava o sim você era a personificação do não. E dessa forma andamos, e fomos nos distanciando e sonhando e conhecendo novos lugares, pessoas... Sonhos! Eles me contavam que as diferenças eram apenas uma questão de desejo e os desejos eram suplantados pelo companheirismo e o companheirismo era conquistado pelo tempo e o tempo é o pior dos inimigos de uma relação quando existe a distância física. Éramos o ambiente perfeito. Eu acreditava que poderia vencer tudo que as teorias afirmavam pois via-me como uma pessoa forte, um ponto focal capaz de emanar toda a ajuda que demandasse, tal como uma pitonisa, aconselhar, orientar, mostrar a capacidade de ser algo indecifrável e potente a ponto se ser admirado. Sim eu sonhava. Sim eu estava errado. E sim eu fracassei. Precisei me aceitar e entender o que para você era algo absoluto. A minha pequenez era abominável. Minha evolução espiritual era terrível, algo perto do insignificante. Me aceitei. Abri mão de sonhos e passei viver da realidade que me trouxe a solidão que me trouxe a aceitação que me trouxe o entendimento que me mostrou o meu caminho solitário a seguir, mesmo que lá no passado estivéssemos caminhando lado a lado. Sigo. Até onde eu não sei, até quando eu não sei, mas sigo. Sei que o passado foi brilhante, éramos muito próximos, tínhamos talvez algum sentimento que nos sustentava mas a distância e o tempo destroem todos os vínculos. Hoje talvez você esteja melhor do que eu estou, talvez, pois não sei mais quem você é, no fundo talvez você nem se lembre mim, pois é o fluxo natural, excluir os arquivos mortos da memória. Seguimos nossos rumos, apesar de todos os contratempo e a profunda ferida que ainda pulsa no meio coração. E acho que sempre pulsará.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Para uma avenca partindo - Caio Fernando Abreu

Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer... Dessas coisas que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais... Porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme de todas essas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver... Não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando o meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs... Não, não sei por que todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensando nisso, por favor, não me interrompa, esse maldito vício de comprar uma maça toda noite antes de voltar pra casa me incomoda, realmente não sei. Existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor, pensei sim, não, pensar propriamente não, mas eu sabia que havia uma outra coisa atrás e além de nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria. Você lembra uma vez quando disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, de não sentir medo desse mais fundo. Você riu... Porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco. O que quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos conta, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa da garganta que falo, é de uma outra, de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso. Deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeito, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca... Talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente... Você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir! Por favor! Ajuda-me... Senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai ser mais possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras! É o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa. Olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos! Mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor, não é? Eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando numa porção de coisas que queria te dizer depois, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis que precisam ser ditas... Não faça essa cara de espanto, elas são realmente terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, se você teria, não sei, disponibilidade suficiente para ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo! Disponível, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender melhor... Claro que dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é, eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas. O fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente em nada. Mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia desses eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas. Espera um pouco, eu vou te dizer todas essas coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar atenção você não vai conseguir entender nada... Sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo. Sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem. Está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo. Continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, a maçã fica comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai... Sim, sei, eu vou escrever, não, eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, (correndo para abrir a janela) está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as bolsas, fica tranquila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca! Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer... Olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê...

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

quinta-feira, 10 de outubro de 2013